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terça-feira, 3 de março de 2009

Novas regras incentivam parto normal

(03/08/2008) O Brasil é campeão de partos por cesariana. Na rede privada, o índice de cesáreas chega a quase 90% do total de nascimentos. Nos hospitais públicos, varia entre 40% e 50% dos partos. Para reverter essa cultura e resgatar a maneira natural de dar à luz, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) lançou uma resolução (nº 33) que visa estimular o parto normal, estabelecendo novas regras para as maternidades. As maternidades têm até dezembro para se adequar e oferecer algumas garantias às gestantes que optarem pelo parto normal. “O parto humanizado já vem sendo adotado por muitos serviços, mas não se limita a um atendimento adequado e educado. A proposta da Anvisa é encarar a evolução natural do trabalho de parto, deixar a natureza agir e também reduzir a medicalização”, diz o ginecologista, obstetra e coordenador da área de Saúde da Mulher de Campinas, Fernando Brandão. Segundo ele, com o avanço da tecnologia e a utilização cada vez maior de serviços hospitalares, as gestantes foram se distanciando da família no momento do parto, ao contrário da época em que os nascimentos aconteciam nas próprias residências. Os serviços também passaram a usar mais medicamentos para acelerar o processo e evitar a dor, e a apelar para a cesárea pela facilidade que ela representa: procedimento rápido comparado às várias horas que podem levar um trabalho de parto normal, além da possibilidade de estabelecer a data e horário, coisa impossível no parto normal. “A cesárea facilitou as coisas tanto para o médico como para a paciente”, avalia Brandão. Mas a idéia, diz o médico, não é ignorar os avanços tecnológicos. “Deve-se aproveitar os mecanismos disponíveis, mas sem abrir mão dos fatores naturais, com algum familiar junto da mulher na hora do parto, o contato com o bebê logo após o nascimento, o alojamento conjunto da mãe e bebê, entre outros.” Outro aspecto que a resolução da Anvisa busca é a desmedicalização, que prevê a utilização de soluções para o alívio das dores da gestante, sem, necessariamente, apelar para medicamentos ou intervenções desnecessárias, como fórceps ou cesárea. O especialista destaca que houve uma inversão de valores e que muitas pacientes acreditam que a cesárea é um método mais seguro, além de indolor, o que não corresponde à realidade. “Além da recuperação ser muito mais rápida nos partos normais, com a cesárea, aumenta muito o risco de infecção ou hemorragias na mulher”, informa Brandão. O parto normal também é benéfico para o bebê, acrescenta. “Além do risco menor de parto prematuro, a passagem do bebê pelo canal do parto (vaginal) o faz expelir a secreção do pulmão, o que permite uma melhor oxigenação do bebê nas primeiras horas de vida.” A dona de casa Florisbela Lima Medeiros, de 37 anos, é uma adepta do parto normal, método adotado para o nascimento de seus sete filhos, a mais nova, Juliana, no último dia 21. “Todos os meus filhos nasceram de parto normal e nunca tive problemas. Todos os partos foram tranqüilos e rápidos”, conta. Ela diz que, não fosse a dificuldade econômica, teria outros filhos. “E, para fazer cesárea, só se não tiver outro jeito. No parto normal, a recuperação é bem mais rápida, a gente consegue andar praticamente no mesmo dia.” Florisbela é mãe de Tatiana, de 16 anos, de Taianara, 13, Tiago, 11, Taiane, 9, Taiz, 7, Fernando, 3, e Juliana, com quase duas semanas. A dona de casa Cristiana Rodrigues, de 33 anos, teve o primeiro filho, Felipe, de 16 anos, de parto normal. Já no segundo, Nicolas, de 3 meses, precisou fazer cesárea. “Ele estava encaixadinho para o parto normal, mas fez cocô e teve ser retirado rapidamente. Só por isso fiz cesárea. E pude sentir na pele como a recuperação é mais complicada”, afirma. Americana capacita equipe de doulas A atuação das doulas no parto também pode reduzir significativamente as taxas de cesárea, diminuir a duração do trabalho de parto, os pedidos de anestesia e o uso do fórceps, além de tornar mais prazerosa a experiência do nascimento. Buscando aumentar o quadro de doulas voluntárias, a Secretaria de Saúde de Americana, em convênio com o Ministério da Saúde, a Associação Nacional de Doulas (Ando) e o Hospital Municipal Dr. Waldemar Tebaldi, realiza entre quinta-feira e sábado uma capacitação com Lucia Caldeyro Stajano, coordenadora pedagógica da Ando. “O trabalho das doulas é voluntário, só é preciso algumas horas de dedicação, carinho e companheirismo. Orientamos as gestantes e os seus acompanhantes sobre os exercícios, massagem para alívio das contrações e tudo que possa agilizar o parto e aliviar as dores”, afirma Meire Rosa, coordenadora das doulas no hospital municipal. Hoje, a equipe soma cinco voluntárias, mas o ideal seriam 30. Para integrar-se ao programa é necessário que a mulher tenha mais de 40 anos, disponibilidade para participar da capacitação de 32 horas, boa saúde física e mental e disponha de, no mínimo, um período de seis horas uma vez por semana. As inscrições podem ser feitas pelo telefone (19) 3406-1998, ramal 226 ou 228. (AAN) Em Campinas, hospitais do SUS já adotam algumas medidas Desde 2001, o Caism iniciou processo de estímulo ao parto humanizado; Celso Pierro e Maternidade também estão no caminho Algumas medidas estabelecidas pela Anvisa para humanizar o processo e estimular o parto normal já são adotadas pelos hospitais campineiros que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo a coordenadora do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Eliana Amaral, a instituição é pioneira na aplicação dessas normas e adota as recomendações da Anvisa há anos. Eliana explica que desde o início de 2001 o Caism iniciou um programa de estímulo à presença de acompanhante no parto. Outras mudanças foram surgindo a partir de 2003 e 2004, como o apoio à mulher por equipe multidisciplinar, oferta de métodos não farmacológicos para alívio da dor, como banho morno, movimentação, posição livre, massagens e anestesia quando a mulher necessita. “Hoje”, diz, “a maioria dos partos, vaginais ou cesarianas, são feitos com a presença de um acompanhante de escolha da mulher”, exemplifica. “Também mantemos um programa de visitação à maternidade durante o pré-natal”, completa. O Caism ainda está reformando seu centro obstétrico para criar salas individuais para as parturientes e seus acompanhantes. O Hospital e Maternidade Celso Pierro, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), segue a mesma linha. De acordo com o ginecologista Douglas Bernal Tiago, a unidade oferece quarto coletivo com banheiro, alojamento conjunto para mãe e bebê, e visitação durante o dia todo. “Agora, estamos adequando a sala de pré-parto, criando espaços individuais para a mulher ficar com o acompanhante”, explica Tiago. O médico diz ainda que nos quartos, por serem coletivos (com duas camas), é permitido acompanhante, mas do sexo feminino para evitar constrangimento para a outra paciente. “Algumas especificações, como quartos individuais, são inviáveis. Quanto às demais, algumas adotamos há anos”, resume. A Maternidade de Campinas informou, via assessoria de imprensa, que vai providenciar as modificações físicas necessárias para se adequar às novas regras, e que algumas delas já são adotadas, como o alojamento conjunto e acompanhamento no parto, desde que o pai faça um cursinho para garantir que ele tenha condições de assistir. Segundo a assessoria, o acompanhante na internação só é permitido para pacientes de convênios e particulares, uma vez que os quartos do SUS são coletivos.

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